terça-feira, 19 de maio de 2009


Diga não a arte

- Você acredita na arte? Acredita nos artistas? Não se deixe enganar meu caro.

- Bem...

- A arte não existe e artistas são falsários que precisam de atenção. Dê atenção a um artista e faça-o feliz. Nem precisa comprar suas obras. Apenas elogie. Eles se alimentam de elogios. São ególatras carentes. Só Picasso gostava de grana e bucetas.

- Humm...

- Assista a suas peças teatrais. Vá ao seu show. Diga que gosta de Frida Kahlo. A Adriana Calcanho gosta de Frida Kahlo. Os cineastas, diretores, artistas de merda, atores estúpidos, todos gostam de Frida Kahlo. Está na moda. O que não está na moda é gostar de Bosh, Pollack ou Banksy.

- Acho que...

- É fácil deixar um artista desconcertado, sem graça, sem argumentos. Quando encontrar um destes por aí, nunca deixe de perguntar o que é arte? Pra que serve arte? Pergunte se Da Vinci era um artista? Responda imediatamente que NÃO. Da Vinci era um renascentista de múltiplos interesses, inclusive a pintura.

- Mas...

- Se encontrar um artista por aí, conte que para os gregos, não existia a palavra arte e nem o conceito estúpido que criamos mais tarde. Tudo era técnica: a técnica de fazer pinturas, esculturas, sapatos, roubos, navios e a guerra. Pode inventar outra história se quiser. Artistas são burros.

- Eu queria...

- Artista é aquele que expressa algo? Caro amigo, se eu arrotar numa sala cheia de gente esnobe, estou me expressando de forma mais contundente que se fizesse um discurso ofensivo de duas horas ou pintasse uma tela escrota com pedaços de pessoas cortadas.

- Sim, mas...

- Quer se expressar? Acenda um cigarro num ambiente fechado e mostre que democracia é você mandar em alguém e autoritarismo é alguém mandar em você. Assim você expressa seu profundo desdém, nem que seja pelos não fumantes.

- Posso falar?

- Lembre-se que artista é o caralho, ou como diz aquela música: “computadores fazem arte. Artistas fazem dinheiro”.

- Você escreve muito bem, se expressa muito bem. Deveria ser artista.

Ópion


A voz conduz às pedras como fazem as sereias. O desenho da boca, suculenta e desejada como manga. O cheiro do hálito entorpece como éter. Me desculpe se nessa hora falo sem nexo. Estava pensando em sexo.
Mike Merdha

segunda-feira, 18 de maio de 2009


Tática dos Desesperados

Agora os amigos mais íntimos resolveram dar conselhos amorosos. Quando esse tipo de coisa começa a acontecer, pode ter certeza de duas coisas: você tá visivelmente ferrado e todos os conselhos têm cara de livro de auto-ajuda escrito pelo cara que não comeu ninguém durante os cinco anos de faculdade.

Tática 1

- Se quiser conhecer uma mulher pra tu dar o valor, o melhor lugar é um super mercado. Li uma pesquisa que diz que durante as comprar as mulheres ficam mais receptivas. Principalmente ao sexo.

- Sério?

- Não sei. Mas em todo caso, faz a porra dessa barba, se arruma e vai à luta.

Tática 2

- O melhor lugar pra se conhecer uma mulher de responsa, é na farmácia.

- Na farmácia?

- É isso aí. Ali (assim como quem não quer nada) você acaba criando uma oportunidade para palpitar na vida íntima dela. Quando a bonitona estiver escolhendo o xampu chega junto e diz que o cheiro dele deve combinar com ela.

- E funciona?

- Não sei, mas se não funcionar, aproveita e compra uns tranqüilizantes que passa.

Tática 3

- Na livraria também rola. As pessoas ficam mais intimistas, tranqüilas e abertas a novos conhecimentos. Você passa horas vendo capa de livros, trocando olhares e atirando que nem o Rambo na Amazônia. Além disso, você tem um excelente motivo pra puxar conversa. Sugere uns títulos, diz que já leu o livro que ela estiver na mão.

- Você já pegou alguém numa livraria?

- Não... nem vou em livrarias

- Então cala essa boca!

- Pelo menos eu não tô em pânico que nem você, Johnny Bravo.

terça-feira, 12 de maio de 2009


Terra do nunca

Você embala a prancha e só ouve o som das rodas correndo pelo asfalto. Depois disso, sobram só o medo e o silêncio.

A curva chega rápida enquanto você despenca. A certeza de que você vai conseguir passar por ela já ficou pra traz.

Agora não dá mais pra parar. Não dá pra mudar de idéia. Também não dá pra explicar por que alguém se mete a fazer isso.

Ninguém tá ali por esporte. É por diversão. Por exibicionismo solitário. Por um tipo de narcisismo. Pela busca de um tipo de liberdade que não existe.

Uma pedrinha no meio do caminho e já era. A visão de 170º cai pra 30% disso. Mal dá pra prestar atenção no vento passando no rosto ou no jeito que você desliza pela curva.

Não sobra muita coisa além dos quatro segundos em que você divide o pensamento entre se preparar pra cair e terminar com estilo o que começou.

Quando termina tudo bem, seu mundinho parece a Terra do Nunca.

segunda-feira, 11 de maio de 2009


7 perguntas e nenhum suck my dick

Então quer dizer que pra eu te comer vou ter que ir até esse lugarzinho chato, ouvir seus amigos falando sobre baladas inesquecíveis e bandas legais que só eles conhecem?


Quer dizer que se eu quiser te comer vou ter que agüentar esse flash back meia boca da pior parte do underground e ver tudo outra vez?


Se quiser te comer vou ter que achar legal Laranja Mecânica (outra vez), O Fabuloso Destino de Amelie Poulin (mais uma vez) e outros clichês de gerações?


Vou ter que ouvir o blá blá blá sobre como a sociedade trata os desajustados e como você ou sei lá mais quem tenta se virar nesse inferninho particular?


Então quer dizer que pra conseguir te comer, não devo me importar com seu visual super descolado, totalmente antenado com a moda e absolutamente idênticos aos das suas amigas gostosinhas?


Pra te comer vou ter que fazer parte dessa tribo do All Star?


Justo eu, que não suporto ficar recluso a um único universo, quanto mais a um beco?


Porra, faça logo 30 anos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009


Vagabundos bem-sucedido

Você conhece algum? Eu conheço.


Um dos melhores, inclusive.

Aos vagabundos bem-secedidos devemos tudo e temos que reverenciar sempre que cruzarmos com um pelo caminho. Seja por conivência, cumplicidade ou inveja.

Faça isso sem formalidades, mas com respeito e uma certa distância. Nunca com um abraço de quem encontra o amigo na farra.

Vagabundos bem-sucedidos conhecem todo mundo, a fundo. Sabem segredos obscuros dos grandes nomes das altas rodas. Segredos que não devem ser nunca revelados.

Vagabundos bem-sucedidos são exóticos, simpáticos, camaradas, irônicos e sabem fazer as mulheres gozarem, mesmo as frígidas e esquecidas.

Vagabundos bem-sucedidos entram em qualquer lugar sem pagar porque são amigos dos donos ou são confundidos com amigos dos donos.

Vagabundos bem-sucedidos têm sempre uma história incrível pra contar. Histórias que não aconteceriam com mais ninguém. Histórias que são sempre verdadeiras, já que os detalhes são tantos e tão absurdos, que ninguém seria capaz de inventá-los.

Vagabundos bem-sucedidos não trabalham. E não é que não precisem de grana. É que trabalhar ofende sua crença e limita seu estilo de vida.

A semi-escravidão está reservada a nós aqui no andar de baixo. Nunca a eles.

Vagabundos bem-sucedidos poderiam ser arrogantes, mas não são. Eles já perceberam antes de todo mundo, o quanto as pessoas são burrinhas e nunca ultrapassam a média.

Vagabundos bem-sucedidos estão sempre viajando pra lugares incríveis sem ter que pagar um centavo por isso. As pessoas querem ter a companhia de seu charme, sua sedução, seu estilo de vida inalcançável e seu humor de entrelinhas.

Vagabundos bem-sucedidos são justos e sinceros. Não puxam saco, não trapaceiam, não bancam o esperto e não são imorais.

Vagabundos bem-sucedidos são sábios. São nossos mestres do avesso. São nossos mentores em bares copo-sujo. São nossos monges tibetanos da quebrada.

segunda-feira, 4 de maio de 2009


Once I lived the life of a millionaire
(inspired in Bessie Smith)

Quando eu era um milionário, divertia-me ver como você me queria profundamente. Tão romântica e apegada, não vivia sem mim.

Quando eu era milionário, me olhavam como estrela de cinema enquanto andava pelas ruas.

Quando eu era milionário, ria alto em restaurantes esnobes e minhas gorjetas eram as que mais faziam sorrir os garçons e flanelinhas.

Quando eu era milionário, acordava tarde em camas sempre tão grandes, macias, com pessoas estranhas me servindo um café da manhã de sultão, cheio de frutas que nunca descobri o nome.

Quando eu era milionário, escolhia viagens no jogo de dados, apostava em cavalos de corrida e não me importava com roupas elegantes.

Quando eu era milionário, seu sorriso era tão sincero e farto. Seu olhar era tão legítimo. Seu amor por mim parecia eterno.

Até que um dia, num golpe de azar, os centavos se foram e com eles os restaurantes esnobes, os convites para festas animadas e enfadonhas da alta sociedade, as viagens exóticas, os sorrisos receptivos e as noites em camas espelhadas.

Mas de tudo, o que sinto mais falta, é o respeito dos flanelinhas.